Alexandre Gehlen: Ministérios e agências de desenvolvimento turístico: quem faz o quê?

Alexandre Gehlen

Não podia ser diferente. Os olhos de toda a indústria de viagens se volta a cada novo presidente para suas declarações sobre o segmento.  escolha do ministro que ocupará a pasta do turismo e, obviamente, a política a ser implantada. Já faz um bom tempo, no entanto, que empresários renovam, sem grande entusiasmo, a esperança de que uma revolução possa acontecer e o Brasil assuma, de vez, sua vocação como grande destino turístico nacional e internacional.

O primeiro grande passo para a mudança é ouvir empresários e estudiosos do assunto. A segunda tarefa é analisar, em profundidade, o que fizeram países bem sucedidos. Depois disso é preciso criar um plano de ações, discutir com o mercado e implementar o que foi pensado.

Não se pode dizer que nenhuma das gestões anteriores não tenham tentado e tenham deixado as portas abertas para ouvir críticas e sugestões. Tampouco se pode dizer que não tivessem ido buscar inspiração no exterior. O que faltou então? Ao meu ver, um plano realmente eficiente e a clareza de quem faz o quê.

Um ministério tem uma função política e estratégica. O ministro é aquele indivíduo que não precisa ser, necessariamente, um técnico. É preciso, sim, ser estrategista, bom ouvinte e, principalmente, um articulador. Imprescindível estar cercado de uma equipe que conheça, a fundo, a indústria e tenha a estrutura para trabalhar. Ministérios ou secretarias de turismo pelo mundo buscam negociar com outras pastas melhorias na infraestrutura, verbas para promoção eficiente e também propor mudanças de leis que desburocratizem negócios e facilitem investimentos.

A função da estrutura técnica e administrativa — burocracia — é importante em qualquer governo para reunir estudos e números que apresentem o cenário da indústria e forneçam dados para tomadas de decisões por empresários e executivos. E, convenhamos, que encontrar números no Brasil é uma tarefa desafiadora.

E qual a necessidade de uma Embratur, no caso do Brasil? Já há muito tempo se estruturou como uma autarquia cujo objetivo era o de promover o Brasil no exterior. No entanto, sua eficiência, através dos números, foi e é altamente questionada.

Hoteleiros são, por razões óbvias, aqueles que são mais interessados em turismo inbound. Companhias aéreas, operadoras de turismo, agências de viagens podem compensar perdas investindo em outbound. A indústria da hospitalidade, não. Por essa razão que procuramos, no FOHB, buscar referências internacionais que poderiam contribuir com nosso país.

A França é tomada como grande referência. Seu ministério de turismo tem função justamente de pensar em estratégias que são operacionalizadas por uma agência, a Atout France. Tal órgão passou por uma grande transformação em 2007 pelas mesmas razões pela qual achamos que a Embratur tem de mudar. Curiosidade: a Embratur foi criada, como muitas outras empresas do setor, inspirada na antiga Maison de la France (nome antigo da atual Atout France).

Em 2007 os franceses perceberam que uma empresa para promover o destino internacionalmente era ineficiente. Resolveram então mudar o status para agência de desenvolvimento turístico cujo objetivo é promover domesticamente e internacionalmente a França como destino turístico, publicar estudos de mercado, promover o treinamento dos equipamentos turísticos e criar a sinergia para grandes campanhas junto ao trade internacional, imprensa e grande público. O financiamento também passou a ser cada vez menor por parte do governo.

O Peru também é outro grande exemplo, embora a estrutura seja diferente daquela existente na França. No entanto, a eficiência é inegável. A promoção internacional do turismo não está necessariamente vinculada a um escritório exclusivo para o segmento. Turismo é comércio, daí que pelo mundo, o escritório comercial do Peru recebe a incumbência de “vender” tudo o que o país tem de melhor, de ceviches a experiências de viagens.

Duas culturas, duas realidades diferentes. No nosso caso deveríamos olhar com mais atenção e buscar essas e outras inspirações...  Assim como os americanos o fizeram, ao criar o BrandUSA. Benchamarking não é um modismo, é uma ferramenta de negócios. Exemplos não faltam.

Confiamos nos novos nomes e fazemos votos para uma bem sucedida gestão. A nós, empresários do setor, nos cabe, além de torcer pelo êxito do novo ministro, estar à disposição para fornecer informações e percepções de quem pensa dia em noite como ter turistas em nosso país. Ideias, disposição para o trabalho e confiança temos e teremos, hoje e no futuro,  para posicionar o Brasil como liderança em nossa indústria.

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Alexandre Gehlen é presidente do FOHB (Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil) para o triênio 2018-2020. O executivo é Diretor geral e sócio da ICH Administração de Hotéis, que opera as marcas Intercity, Yoo2 e hi!

(*) Crédito da foto: divulgação/FOHB

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