Otavio Novo: A história de uma família europeia no réveillon brasileiro

Otavio Novo - artigo Dia Mundial do Turismo

Nesse artigo de ano novo, faremos algo diferente. Usaremos uma história que vivenciamos para ilustrar mais um caso relativo à gestão de riscos e crises no nosso turismo nacional. 

Nossa história começa com um convite de uma grande e especial amiga (sobre quem falaremos mais a seguir), para passarmos o fim de ano em sua casa, na maravilhosa Bahia. Bahia de todos os santos, culturas, músicas, belezas naturais, mas também dos problemas que não livram nenhuma localidade turística brasileira das situações delicadas para turistas, comunidades e negócios locais.  

E para lá fomos, minha esposa, nosso filho e eu, gratos pelo convite e felizes por mais uma visita a esse local que sempre nos surpreende e nos transforma a cada volta para casa. 

Nossa anfitriã, merece um capítulo à parte no quesito hospitalidade, tanto ao receber os amigos/hóspedes, como nós, quanto profissionalmente, já que depois de muitos anos atuando diferentes negócios de hospitalidade, esbanja conhecimento e vocação para transformar uma simples visita, numa nova e inesquecível experiência para os sortudos que por ela são recebidos. 

Durante os primeiros dias da nossa estada, também estavam na casa uma família de alemães: mãe, pai e uma filha de cerca de 10 anos, hospedados por uma das atuais plataformas de aluguel de imóveis. E a nossa anfitriã, mais uma vez, transformou esses poucos dias em uma memorável aula de como receber, inclusive elevando para outro patamar o que propõe e se espera do conceito “bed and breakfast”. Atenção aos detalhes, acomodações altamente seguras, indicações precisas, acompanhamento em passeios e mimos difíceis de ver inclusive em hotéis de luxo. E tudo isso porque, como já foi dito, ela costuma extrapolar os limites das expectativas. E esses turistas foram os sortudos da vez.

Em uma das agradáveis conversas que tive com a família de hóspedes alemães, dias antes da passagem de ano, soube que iriam para o réveillon em Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro e por lá ficariam alguns dias. 

Com cuidado e sem discorrer de forma técnica ou formal sobre as precauções/recomendações com a segurança naquela viagem, alertei, de forma amigável e leve, sobre alguns princípios básicos de prevenção para aglomerações e locais/situações com altos índices de criminalidade. O pai da família, ao ouvir as observações, demonstrou um preocupante misto de tranquilidade e de “eu sei como é: é assim em toda a cidade grande do mundo”. 

Fato é que, assim que voltaram para a Alemanha, soubemos que tiveram os 3 celulares roubados durante a viagem de ano novo no Rio de Janeiro. 

Algumas postagens na internet feitas pela família, mencionam a satisfação de terem sido recebidos pela anfitriã especial na Bahia, e, além disso, como não poderia deixar de ser, narram a frustração pelo roubo sofrido durante a celebração de ano novo. Contam que viveram, assim como muitos outros, o céu e o inferno do turismo brasileiro em uma única viagem. A hospitalidade especial do brasileiro, e os efeitos de uma sociedade desigual, abandonada e, muitas vezes, agressiva.   

Dentre as recomendações que dei na conversa ainda na Bahia, estava a óbvia e conhecida, “evitem levar consigo objetos de valor nos passeios”, contudo, a questão é que hoje em dia o principal alvo dos assaltos, o telefone celular, é para muitos um objeto de necessidade básica, que reúne em um único aparelho as ferramentas necessárias para fazer praticamente tudo, principalmente numa viagem. 

Portanto, quase sempre existirá um item de valor para motivar esses roubos, que muitas vezes acabam em atos graves de violência. 
Como exemplo, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, entre janeiro e abril de 2019, 63% de todos os roubos (subtração com ameaça) do Estado tiveram como alvo o aparelho celular. Assim, medidas diretas, como o policiamento inteligente e o combate à receptação e comercialização desses equipamentos produtos de roubo, são fundamentais para maior segurança no turismo e comunidade de qualquer localidade. 

Diante disso, aqueles que atuam no turismo devem se organizar e cobrar práticas efetivas dos órgãos competentes para atacar as causas desse e de outros importantes riscos para os turistas e cidadãos, e assim evitar que experiências negativas se sobressaiam e prejudiquem todo o esforço e o trabalho realizado pelos que prezam o bom atendimento e hospitalidade nos diversos destinos do nosso país, como a nossa querida anfitriã na Bahia.

Feliz 2020 e muito axé a todos!

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Otavio Novo é profissional de Gestão de Riscos e Crises, atuando desde o ano 2000 em empresas líderes nos setores de serviços, educação e hospitalidade. Consultor e idealizador do projeto Novo8, mencionado pela ONU no IY TOURISM 2017.  Advogado, coautor do livro "Gestão da qualidade e de crises em negócios do turisno" , durante 6 anos foi responsável pelo Departamento de Segurança e Riscos da Accor Hotels para cerca de 300 propriedades e 15 mil colaboradores em nove países da América Latina.

Contato: otavio@novo8.com.br​ | www.novo8.com.br

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