Lifestyle: com distanciamento social, como manter o DNA dos hotéis?

lifestyle- retomada_piscina FasanoPiscina do Fasano Rio é um dos pontos mais disputado do hotel carioca

Na hotelaria, lifestyle e experiência são palavras que andam de mãos dadas. Desde que o setor deixou de querer ser apenas um lar fora de casa, hotéis passaram a investir em designs mais modernos e integrativos, unindo hospedagem, lazer e trabalho. Agora, diante do “novo normal” que será herdado da pandemia, o segmento tem o desafio de manter seu DNA: integração entre hóspedes e público local nas áreas comuns. Será possível?

Com a chegada do coronavírus e a implementação forçada de uma cultura de distanciamento social, preservar o conceito da hotelaria lifestyle se tornou uma tarefa mais difícil, pelo menos até o surgimento de uma vacina. Com a crise em seu clímax, profissionais do setor miram seus olhares para o futuro buscando alternativas para manter estes empreendimentos pulsantes, da forma como operavam antes da pandemia.

Já foi exaustivamente dito que o comportamento do consumidor mudará e adaptações precisarão ser feitas. Com projeções de demandas tímidas nos primeiros meses pós-crise, hotéis e resorts se planejam para receber turistas de forma confiante e sem deixar a desejar na experiência.

Para Roland Bonadona, ex-CEO da Accor América do Sul e proprietário da Bonadona Consulting, o medo será temporário, mas alguns procedimentos vêm para ficar. “Se olharmos para trás, temos um histórico de isolamento e distanciamento de anos em períodos de guerra, por exemplo. Estamos passando por um confinamento intenso, porém curto. As pessoas estão com medo de se contaminar, mas acredito que esse sentimento será passageiro. A vontade de viajar ainda existe e não acho que quatro meses transformem isso”, diz.

O executivo ainda dá exemplos de acontecimentos passados, como os atentados de 11 de setembro, nos Estados Unidos, e a epidemia de Sars, na Ásia. “Durante algum tempo, os turistas tiveram receio de ir para Nova York. É verdade que alguns procedimentos de segurança se perpetuam até hoje, mas a cidade é novamente uma das mais visitadas do mundo. Acredito que, com o Covid-19, haverá comportamento semelhante”, complementa.

lifestyle- retomada_roland bonadonaBonadona: há problemas à frente, mas é um túnel com uma luz ao fundo

Lifestyle: planejando a retomada

O La Torre Resorts (BA) tem o lazer como sua principal demanda. Segundo Luigi Rotunno, CEO do grupo La Torre, o momento é de observação e de acalmar os clientes. “Dependemos muito das aéreas e estamos aguardando posicionamentos, mas já estamos em fase de adaptação. Temos que arriscar estratégias futuras”, comenta.

Para o hoteleiro, o segmento de resorts não poderá trabalhar com a mesma densidade, pelo menos por enquanto. “Vamos reduzir a nossa ocupação para evitar filas e aglomerações nas áreas comuns e excluímos o bufê. Entendemos que o cliente quer ter a mesma experiência e não se sentir em um hospital. Nossa previsão de abertura é para agosto, mas isso pode mudar. Prefiro jogar para frente porque ainda não sabemos o que vai acontecer”, comenta.

O empreendimento baiano tem expectativas de operar com apenas 50% de sua capacidade no pós-crise e estuda elevar sua categoria e mirar hóspedes de alta renda. “Vamos reduzir o volume e, ao mesmo tempo, sofisticar o La Torre, aumentando a qualidade de nossos serviços. Queremos nos redimensionar para conseguir fechar a conta no final do mês”, explica Rotunno.

Distanciamento entre as mesas nos restaurantes, piscinas e separação de check-in e check-out estão entre as medidas adotadas no resort. Para evitar aglomerações no lobby, por exemplo, o empreendimento vai dividir suas entradas: uma para a chegada e outra para saída de hóspedes, de forma que os mesmos não se cruzem.

No Grupo Fasano, iniciativas semelhantes estão em fase de estudos, em especial na unidade carioca, com forte apelo lifestyle. “O Fasano Rio é um hotel vivo que recebe muitos hóspedes internacionais. A piscina é um dos pontos mais disputados. Então, vamos aumentar os espaços entre as espreguiçadeiras e reduzir o volume de pessoas”, conta Rodrigo Napoli, diretor de Vendas e Marketing da rede paulista.

O executivo ainda ressalta os protocolos de higienização e espera de 48h para iniciar uma nova estada em cada quarto e redução no número de hóspedes, mas não arrisca um palpite para a data de reabertura. “Estamos em fase de análise, olhando decretos para tomar todas as precauções e ver qual unidade abrir”, comenta.

Programação e áreas comuns

Apesar dos desafios, a programação wellness e musical não deve parar no La Torre. Segundo Rotunno, bem-estar e entretenimento serão grandes demandas no pós-pandemia. “Vamos focar em aulas de yoga, alongamento e gastronomia saudável produzida com ingredientes de nossa horta. Nos eventos, vamos focar em músicas menos dançantes e mais ao estilo lounge”, revela.

Nas áreas comuns do Fasano, a proposta é tornar os ambientes menos convidativos. “É duro, mas se for necessário teremos que perder um pouco da característica. O lifestyle é uma categoria que vai sofrer mudanças significativas. Hotéis mais abertos e resorts têm uma vantagem neste aspecto”, lamenta Napoli.

Otimista, Bonadona acredita que o desejo de experiências e imersão nos destinos vai se manter e, em breve, as operações voltarão ao padrão “normal”. “Temos muitos problemas pela frente, mas é um túnel com uma luz ao fundo. A hotelaria tem que ser feita com propósito e, quando as pessoas absorverem o medo, voltarão a frequentar estes locais. Não acredito que esta seja uma tendência que vem para ficar”, avalia.

lifestyle- retomada_carolina haroCarolina: proposta de valor do lifestyle é mais válida do que nunca

A proposta de valor

Carolina Sass de Haro, sócia-diretora da Mapie, lembra que é importante entender o que motivou a transformação destes produtos na hotelaria lifestyle. “São aspectos como a busca por mais conexões, mais autenticidade, valorização do que é local e assim por diante. Neste sentido, a pandemia acelerou estas necessidades e tendências e, neste sentido, a proposta de valor é mais válida do que nunca”, observa.

Segundo ela, a entrega dessas experiências será modificada no curto prazo, mas entende que essa segmentação de produto precisará encontrar novas formas para atender os motivos citados acima. “É possível facilitar a conexão entre as pessoas através dos meios digitais e valorizar o que é local apoiando ou incentivando ações solidárias com a comunidade ou até mesmo valorizando produtos e fornecedores locais no cardápio de A&B”, comenta.

Em relação às ações de bem-estar, Carolina dá dicas práticas interessantes. Antes, ela destaca que, mesmo em plena pandemia, saúde e o bem-estar continuam extremamente valorizados pelos consumidores. “Muitas pessoas estão praticando exercícios à distância em suas casas ou, quando possível, nas ruas e espaços abertos da cidade. É possível potencializar isso também na hotelaria”, ressalta.

“Oferecer kit para prática no apartamento, aulas online que permitem atender a esta necessidade ou desenhar circuitos de corrida e caminhada no entorno dos hotéis são algumas alternativas”, comenta. “Alguns serviços serão reduzidos por questões sanitárias e de redução de custos na hotelaria, mas outros podem ser substituídos, especialmente aqueles focados no bem-estar”, finaliza.

(*) Crédito da capa: Peter Kutuchian/Hotelier News

(**) Crédito da foto: Divulgação/Grupo Fasano

(***) Crédito da foto Bonadona: Divulgação

(****) Crédito da foto Carolina: Divulgação/Mapie

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